[QD-Filosofia] Pedro Rezende: É possível violar a urna eletrônica?

Fernando Ike <fernando-epMFR6Q3tiJwFqzsTH5u/[email protected]>
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Entrevista questionando segurança da urna eletrônica. O original está no
http://www.softwarelivre.org/news/3163

O professor Pedro Rezende *(Projeto Software Livre Brasil e da UNB) é
incansável. Há anos denuncia falhas do processo 100% informatizado das
eleições brasileiras. Nesta entrevista à Tribuna do Planalto não é
diferente. Segundo ele, apenas o Brasil adota um sistema que não permite
recontagem de votos e nem auditagem externa. Professor de Ciência da
Computação da Universidade de Brasília, Rezende aponta o que considera
mais perigoso nas urnas e a inversão de valores.

"Nenhuma autoridade eleitoral jamais me perguntou, nem como cidadão nem
como especialista, se a minha confiança no sistema é mais importante que
a pressa em apurar'', reclama.

Ele, que coordena o Programa de Extensão em Criptografia e Segurança
Computacional da UnB, faz um alerta final: "o leitor precisa entender
que o uso de criptografia por si só não torna um sistema seguro, da
mesma forma que o uso de fechaduras por si só não torna uma casa
segura", diz.

Tribuna do Planalto - Como é possível fraudar as eleições eletrônicas no
Brasil em 2004? Quais são os pontos considerados frágeis do atual
sistema de votação?

Pedro Rezende - Considerado o eleitor que deseja eleição limpa, os
pontos frágeis estão por todo o sistema, pois sua segurança foi
projetada apenas contra ataques externos e falhas não intencionais. Seu
modelo de segurança não mudou. Funciona perfeitamente se implementado e
operado por seres angelicais, mas nem tanto em um país com vasto
histórico de fraudes eleitorais. As formas mais fáceis de se fraudar o
sistema requerem o acesso e conhecimento para operá-lo, mais algum
conhecimento de programação. A forma mais devastadora envolve a inserção
de programa que adultere o boletim de urna (BU) junto com o
correspondente mecanismo para o seu acionamento. Na urna de 2000 esse
mecanismo poderia ser tão simples quanto uma linha de comando com o nome
do programa, e outra para desligar a autoverificação de integridade, no
arquivo setup.bat. Encerrada a votação, esse programa interceptaria a
gravação em disquete e impressão do BU para, por exemplo, antes desviar
uma porcentagem pré-programada dos votos de um candidato a outro. Se
entrar sorrateiramente na urna, e apagar seu rastro e a si mesmo após
agir, a fraude não poderia ser detectada. Tais ações seriam
relativamente fáceis de serem codificadas por um programador mediano que
conheça o sistema. E se a inserção for feita ainda na matriz do
software, isto é, antes da sua inseminação das urnas, o desvio pode
atingir todas as seções de um município ou estado, o que modificaria a
apuração da eleição nas porcentagens e cargos pré-programados.

Mas esse tipo de manipulação não deixaria rastros? Se feita para cargo
majoritário, por exemplo, não dariam na vista das pesquisas eleitorais?

Para parecer limpa, uma manipulação poderia ser feita em conjunto com
alguma pesquisa eleitoral. A pesquisa colheria a verdadeira intenção de
voto, mas não a divulgaria. Os dados serviriam para indicar o percentual
a ser desviado, aplicado na divulgação da própria pesquisa e no programa
fraudador. Quem fizer pesquisa a sério desconhecendo a dupla fraude pode
ser surpreendido por erros anormais, acima da margem estatística
prevista, destoando da pesquisa fraudada que acerta na mosca. Temos
visto pesquisas divergirem por larga margem na véspera de eleições em
vários Estados, bem acima da chamada margem estatística de erro
prevista, como no DF e no RS em 2002. Pesquisas que divergiam em mais de
8%. Erros anormais que ocorreram com o mesmo instituto em duas eleições
seguidas, como o IBOPE no DF. Isso é um sinal inquietante, talvez
relacionado à postura do instituto Gallup. O Gallup goza de boa
reputação pela acurácia nas pesquisas de opinião que faz em todo o
mundo. Embora noutros países faça pesquisa eleitoral, no Brasil ele não
faz. A confiança cega do eleitor no sistema poderia fazer mal à sua
reputação.

O sr. menciona a inserção de programas maliciosos na urna, mas como isso
pode ser feito?

Para a inserção é necessário interceptar a urna inseminada ou a matriz
do seu software durante o transporte. Os TREs estaduais recebem essa
matriz do TSE, acrescentam as tabelas de candidatos e a distribuem para
os pólos, onde as urnas são inseminadas. Esses pólos geralmente se
localizam nos principais cartórios eleitorais. São os locais em que os
disquetes com os boletins de urna são recebidos, ao final da eleição. A
Justiça Eleitoral encomendou uma rede de transmissão de dados conectando
esses pólos aos TREs, e esses ao TSE, para a transmissão dos boletins de
urna eletrônicos e dos softwares. Pela sua proteção, paga caro a uma
empresa particular. Mesmo assim, há notícia de que o TRE de São Paulo
resolveu desprezar essa rede na distribuição do software aos pólos. Vai
distribuir por CD-ROM este ano. Se amanhã encontrarmos cópias piratas
desse CD à venda, quem será o responsável? Mesmo que a rede da Justiça
Eleitoral seja usada isso não garante que o software esteja livre de
adulteração durante a eleição. Esse software pode ser manipulado depois
de recebido, antes de inseminado nas urnas ou depois. Se depois, o
alcance da fraude seria localizado, e a detecção praticamente
impossível. Se antes, o alcance da fraude seria amplificado, e, em tese,
haveria alguma chance de ser detectada por fiscais de partido. Mas
ocorre que certas resoluções, e os TREs por conta própria, têm
dificultado enormemente aos partidos a fiscalização do processo de
inseminação do software nas urnas. Na eleição passada, esse processo foi
executado por terceirizados de quem os partidos não puderam sequer
conhecer os nomes. Alguns sem-nome e sem-crachá foram vistos tirando do
bolso pastilhas de software (flashcards) para pô-las nas urnas, sem que
fiscais pudessem averiguar a origem da pastilha sem rótulo ou do
inseminador. Ou sem mesmo poder reclamar ao juiz eleitoral, às vezes
ausente, como na 1ª zona eleitoral de São Paulo.

E nessa eleição, o que muda? Haveria outras formas de se manipular um
resultado eleitoral?

A assinatura digital, introduzida a título de mecanismo de auditoria
pela nova lei eleitoral no lugar da recontagem de votos impressos, não
tem eficácia fiscalizatória alguma. Ela foi implementada no próprio
ambiente que precisa ser fiscalizado. É como se você, ao abastecer seu
carro num posto de combustível, tivesse os vidros cobertos e não pudesse
descer do caro. Sem direito a olhar no visor da bomba automática, seria
obrigado a confiar no que diz o frentista, de que bombeou a quantidade
pedida, a ser paga por você. Com o frentista sabendo que você não teria
como confirmar. Um sistema eleitoral não deveria nunca ter sua segurança
baseada na lisura das pessoas, mas no risco de qualquer um ser pego caso
se envolva em trapaça ou conluio. Em relação aos anos anteriores, para o
fraudador a assinatura digital apenas acrescenta um pouco mais de código
ao processo de desarme da autoverificação de integridade. Mas isso não é
tudo. Uma eleição limpa, ou mesmo com fraude montada por alteração do
software da urna, pode ainda sofrer ataques de origem interna na
totalização, capazes de mudar o resultado. Nesse tipo de fraude os BUs
são trocados durante o percurso entre a urna e o software de
totalização. Se a troca ocorrer entre a urna e o pólo que recebe e
verifica o disquete com o BU, o falso boletim precisa ser emitido por
uma urna clonada. Se for feito no restante do percurso, basta trocar a
versão impressa do BU que ficará arquivada, e os dados na planilha de
totalização.

Mas a troca de boletins gerados por urnas legítimas, ou dos seus dados,
não seria detectada de outra forma, por fiscais de partido, por exemplo?

Para que tais manipulações não sejam detectadas, o fraudador precisa
saber quais as seções nas quais o partido a ser fraudado deixou de
recolher cópia impressa do verdadeiro BU, assinada pelo mesário. Essas
seriam as seções que podem ter o BU alterado na totalização sem risco de
detecção. Esta informação está nas atas eleitorais. Agora, pergunte a
seu candidato se o partido dele programou-se para recolher BUs impressos
e assinados em todas as seções. Ou, se numa amostra delas, qual amostra.
Na eleição passada um partido chegou a divulgar com três meses de
antecedência as seções às quais iria mandar fiscais. Neste ano, algo
muito mais inquietante está acontecendo no Rio de Janeiro. Surpreendidos
anteriormente com a recusa de mesários em entregar versões impressas do
BU, alguns partidos se anteciparam e pediram garantias do cumprimento da
lei. Para os partidos interessados, o presidente do TRE afirma que a lei
será cumprida: os fiscais que quiserem recolher a versão impressa do BU
na sessão eleitoral poderão fazê-lo. Mas depois, no treinamento de
mesários, o que se ouve é a contra-ordem. A de que os mesários não devem
entregar BUs a fiscal da sessão em hipótese alguma.

O sr. pode dizer onde o como isto estaria acontecendo?

Tenho relatos de uma mesária que, como eu, conhece informática e há
muito se preocupa com a impossibilidade de se fiscalizar efetivamente o
nosso sistema eleitoral. Um chefe do cartório eleitoral teria proferido
a contra-ordem na presença do juiz da 7ª zona eleitoral, na reunião de
treinamento de 22/09, com as seguintes palavras: "Se algum fiscal
insistir, vocês fiquem firmes, batam o pé, e digam aos fiscais para
pegarem o BU no cartório [eleitoral]..." Essa contra-ordem viola a lei
eleitoral 9.504. Contra-ordens desse tipo têm sido dada a mesários
apenas verbalmente, nunca por escrito. Talvez esse tipo de coisa
aconteça impunemente porque, aqui, a Justiça Eleitoral é quem julga os
seus próprios atos. Além disso, mesmo se os fiscais conseguissem fazer
valer seus direitos, o fraudador da totalização teria alternativa. Ele
pode contar com a desvalorização do ato fiscalizatório. Mesmo
desconhecendo as seções onde o partido a ser fraudado não fiscalizou, o
fraudador pode contar com a morosidade dos TREs em divulgar a planilha
eletrônica dos votos tabulados por sessão. Embora os dados estejam
disponíveis quando o resultado eleitoral é divulgado, já que os totais
são as somas das correspondentes parcelas nos BUs, até onde sei nenhum
TRE até hoje divulgou tais planilhas dentro do prazo de impugnação. Há
notícia de que o TRE do Amazonas teria levado cerca de oito meses para
divulgar a planilha da eleição de 2002, enquanto o prazo para impugnação
é, se não me engano, de 72 horas a partir da divulgação do resultado. No
mais, de que adiantaria ao fiscal encontrar uma discrepância entre o BU
impresso recolhido na sessão eleitoral e a planilha eletrônica oficial,
depois de vencido esse exíguo prazo? Dada a forma como a lei eleitoral
tem sido abusada ou ignorada sem constrangimento pela própria Justiça
Eleitoral, uma explicação do tipo "erro de formatação, assunto
encerrado", num despacho pelo arquivamento, talvez não surpreenda.

O senhor teme a chamada "urna clonada" como forma de fraudar uma
eleição?

Não temo urnas clonadas. Temo clonadores, pelo que tenho escrito. A urna
clonada pode ser útil para fraudes que atacam a totalização sem envolver
o processo de totalização do TRE. Ou seja, fraudes que envolvem a troca
de BUs antes da entrega do disquete no pólo informático, portanto,
durante o percurso entre a sessão eleitoral e o pólo. Uma urna reserva,
por exemplo, pode ser clonada e reclonada para simular várias seções
eleitorais. Para que a troca de BUs seja sorrateira e ampla, os BUs
falsos podem ser preparados na véspera. Liga-se a urna reserva com um
dos vários disquetes mágicos que a Justiça Eleitoral usa para reparar
urnas, contendo dados da urna a ser clonada, e depois, com o disquete
para regular o relógio das urnas, acertando-a com o horário da eleição,
pimba!

É verdade que só o Brasil adota um sistema eleitoral 100% informatizado?

O Brasil é o primeiro não só em sistema 100% informatizado, mas também o
primeiro em não permitir recontagem de votos nem auditagem externa
efetiva do sistema. O pretexto usado para se eliminar qualquer forma
efetiva de auditagem tem sido a rapidez da votação e da apuração.
Nenhuma autoridade eleitoral jamais me perguntou, nem como cidadão nem
como especialista, se a minha confiança no sistema é mais importante que
a pressa em apurar. Só se dirigem a mim através de chavões ou
propaganda. A impressão que tenho é que acham que podem abordar a
questão da confiança como questão de marketing. Talvez não para sempre.

O sr. sabe explicar o porquê disso?

Desconheço as razões, mas avalio hipóteses. A que considero mais
plausível pode parecer conspiracionista. Começo pelo livro de autoria do
secretário de informática do TSE, publicado em 1997, em que a história
do sistema é contada. Nele, o secretário diz que metade do custo inicial
da sua implantação, cerca de 250 milhões de dólares, viria de um projeto
do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BIRD, a quem o presidente
do TSE prometera oferecer depois o uso do sistema a outros países. Na
lista de projetos no site do BIRD não consta nenhum tal financiamento,
muito menos tal promessa. Por outro lado o ex-chefe do escritório do FBI
no Brasil confessou recentemente, em entrevista à revista Carta Capital,
que dinheiro controlado pelos serviços de espionagem norte-americanos é
passado a autoridades brasileiras, sem rastros e para fins específicos.
Alguns contratos do TSE, que deveriam ser públicos, tem tido o acesso
negado a fiscais de partido, em tempo hábil de se tentar bloquear os
efeitos de eventuais irregularidades. A propaganda oficial do sistema
fala de vários países nele interessados. Nos bastidores sabemos que o
TSE vêm insistindo muito com outros países para que experimentem nosso
sistema e que muitos vem rejeitando a oferta. A Argentina já dispensou a
urna eletrônica três vezes, sob o argumento de que não poderia recontar
nem auditar, mas o TSE do Brasil insiste. Na eleição passada o TSE
bancou, muito provavelmente com dinheiro do contribuinte brasileiro, sua
primeira "experiência portenha": uma eleição de mentirinha em algumas
seções, em paralelo à oficial, para o argentino ir se acostumando com "a
modernidade eleitoral". Por enquanto, só o Paraguai aceitou pra valer. O
Brasil republicano tem uma longa história de manipulações e fraudes
eleitorais. Um dos episódios marcantes foi a revolução de 1930, eclodida
com o assassinato de João Pessoa. Nela, à guisa de se coibir as fraudes
e manipulações eleitorais comuns à época, estabeleceu-se um regime
eleitoral centralizado, como parte do poder Judiciário. Esse regime
hibernou por vários períodos de exceção e ditadura, para agora vemo-lo
desperto, modernizado e quase absoluto. Fazendo lobby por leis
eleitorais, como nas duas últimas, redigindo suas normas de estranha
lógica, como as resoluções sobre fiscalização que afrontam a lei 9.504,
e julgando seus próprios atos. Como em processos de impugnação que se
arrastam por tempo maior que o mandato impugnado. Enquanto gastam uma
fortuna com propaganda ufanista de um sistema infiscalizável pelo
eleitor comum. Será que quem antes fraudava eleição se viu obrigado a
ficar honesto só porque o sistema eleitoral se informatizou? Pela forma
em que se informatizou, não creio que tenha sido obrigado. Brechas
persistem, só que agora totalmente invisíveis para quem não conhece o
sistema, inalcançáveis por quem não o opera. Para agravar, brechas com
efeito amplificador muito maior do que aquelas típicas da lona e papel,
anteriores à eletrônica. A hipótese que considero mais plausível para
esse pioneirismo quixotesco é a de que o Brasil teria sido escolhido,
por suas peculiaridades históricas e jurídicas, como cobaia numa
experiência de engenharia social rotulável de modernização democrática
terceiro-mundista. Se a opinião pública aceita trocar autonomia
fiscalizatória por rapidez numa máquina de somar, exporta-se a
caixa-preta eleitoral para o resto do terceiro mundo, no rastro do
"sucesso brasileiro". Com o discurso da democracia em alta e com a
internet, o custo social do hardpower tem aumentado. Golpistas e
monopolistas precisam de novos tipos de armas Softpower. No primeiro
mundo, não creio que esse experiência teria grandes chances de sucesso.
Pelo menos não nos países onde o cidadão médio reconhece a importância
da democracia, e dos perigos dela se diluir em um processo eleitoral
obscuro e controlado por poucos. Basta ver a reação contra as máquinas
de votar infiscalizáveis que hoje se alastra nos EUA

Como é que parte do software usado nas urnas do Brasil em 2000 vazou?

Não sei como vazou, sei que vazou. As explicações do que se sabe estão
na própria análise do código vazado. E a confirmação de que se trata do
mesmo software da urna usada em Santo Estevão foi dada pelo laudo do
único perito externo até hoje autorizado a participar de perícia em urna
eletrônica no Brasil, em processo de impugnação.

Qual foi sua análise a partir do vazamento deste software?

Foi publicada no observatório da imprensa no dia da nossa independência.
Está disponível em
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=293ENO002.
Resumindo, foram encontrados os mesmos tipos de vulnerabilidade que
causaram o descredenciamento de urnas com funcionamento semelhante, e do
mesmo fornecedor, em vários estados dos EUA.

É verdade que às 23 horas do dia 6/10/02, já na apuração oficial do
primeiro turno da eleição que levaria Lula e Serra ao segundo turno
presidencial, houve uma "queda" do total de votos de Lula para 41 mil
negativos, causando o desligamento temporário dos computadores de
totalização no TSE? O que aconteceu exatamente?

Quanto à primeira pergunta, há que se entrevistar quem assistia à Rede
Bandeirantes de televisão naquele momento, ou quem estava presente no
salão do TSE onde jornalistas e "fiscais" foram conduzidos para
acompanharem em tempo real a apuração em um telão. Quanto à segunda
pergunta, não se sabe e quiçá não se poderia saber, dada a extensão das
vulnerabilidades descritas na referida análise. Aos fiscais de partido
não foi permitido acesso sequer visual à sala onde rodavam os
computadores da totalização.

Por quê a impressão do voto, com a contagem paralela, sendo uma
alternativa fácil de evitar a fraude, não é implantada definitivamente?
O voto impresso em paralelo apresenta seus próprios riscos, exploráveis
por quem sabe que vai perder e queira melar a eleição. Mas não creio
que, para o eleitor interessado em eleições limpas, esse risco seja pior
do que os riscos neutralizados pela auditagem por voto impresso. O voto
impresso como forma de auditoria teria sido implementado em todo o
Brasil em 2004, por força de lei, não fosse aprovada, de forma
atabalhoada e canhestra, uma nova lei eleitoral eliminando-o. Aprovada
com base apenas na auto-avaliação da fiscalizada, auto-avaliação baseada
em um "teste voluntário" conduzido na eleição passada. Nesse "teste
voluntário" o fiscalizado parece ter se esmerado para o fracasso,
conforme explico em artigo que publicado em um congresso internacional
sobre sistemas de votação, o DIMACS voting workshop, na universidade de
Rutgers, nos EUA. O que me surpreendeu não foi o fracasso do teste
auto-organizado pelo fiscalizado, mas o alinhamento automático da
imprensa com a pauta da sua auto-avaliação. A lei eleitoral que
extinguiu a medida foi aprovada sem nenhuma audiência púbica sobre seu
mérito, apesar da câmara ter recebido abaixo-assinado de professores
pedindo-o. Faço um relato contextualizado da manobra que aprovou essa
lei em artigo recém publicado pelo observatório da imprensa, em
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=295JDB007

O senhor vincula o escândalo da violação do painel eletrônico do Senado,
que envolveu ACM e José Roberto Arruda, com esse medo de fraude das
eleições?

Esse medo não é de fraudes. As fraudes fazem parte da natureza humana,
temos que aprender a conviver com elas, como recém filosofou um
ministro. Um versão científica do ditado "a ocasião faz o ladrão" é
conhecida dos auditores profissionais: as fraudes acontecem em proporção
direta ao valor do que está em jogo, à facilidade de se aplicar golpe e
à credulidade da vítima, e em proporção inversa ao risco do ladino ser
apanhado. Não se trata de medo, mas de coragem de se propor mudanças que
cubram a nudez do rei. Meu medo é do nosso futuro. Dado o descaso
cívico, o anestesiamento moral, o senso de oportunismo e a volubilidade
do cidadão brasileiro no que concerne à nossa democracia, tenho medo das
conseqüências para o meu país, cujo povo não quer se envolver na sua
construção. Frente ao estado atual do mundo, esta situação é agravada
por ingênuo ufanismo, fascínio por algo do qual muitos se orgulham, mas
só querem conhecer pelas teclas. O escândalo do painel do senado foi
útil porque capturou a atenção do público para explicações sobre a
facilidade com que sistemas eleitorais eletrônicos podem ser fraudados
por quem os controla. No caso, até por portas de fundo feitas sob
encomenda, o famoso botão macetoso. Se a opinião púbica se sentiu
naquele momento traída, e depois resolveu mandar trocar o sofá, só tenho
por isso a lamentar, nada a temer. Acho que há aí um problema ético que
não se resolve com troca de sofá. Não vou trocar meu sofá, mesmo que a
maioria assim o prefira. Não voto em sistema infiscalizável, viajo.

Como que o senhor avalia a participação da ABIN-CEPESC no processo
eleitoral brasileiro?

Eles fizeram um software criptográfico para o TSE conforme encomenda, e
acompanham o processo de inspeção do software eleitoral pelos fiscais de
partido. Quando lhes foi solicitado, forneceram também o código-fonte
que seria o desse software criptográfico. No código-fonte apresentado
parece não haver nada de irregular ou reprovável. Mas isso não implica
em garantia de segurança, apenas na eliminação de algumas inseguranças.
O leitor precisa entender que o uso de criptografia por si só não torna
um sistema seguro, da mesma forma que o uso de fechaduras por si só não
torna uma casa segura.

O sr. já conversou com o presidente do TSE sobre o assunto? O que ele
diz a respeito?

Nunca conversei diretamente, apesar de algumas oportunidades terem sido
desperdiçadas. Uma, na esteira do escândalo do painel do Senado, quando
ele aceitou participar de um seminário técnico sobre a segurança do
sistema eleitoral (do TSE), promovido pelo Senado. Fui convidado a
escrever um artigo e apresentá-lo. Escrevi o artigo "A lanterna de
Diógenes", argüindo sobre o equívoco na escolha do modelo de segurança
do sistema. Mas o seminário foi cancelado com a troca do sofá, isto é,
com o esfriamento do escândalo do painel do Senado. Depois, durante a
cerimônia de abertura da apresentação do software do sistema eleitoral a
fiscais de partido, em 2002. Foi-me exigido a assinatura de um termo de
compromisso de sigilo sobre o objeto da fiscalização, absoluto e
irrevogável. Fiscal de partido é fiscal da sociedade, não é testador de
software servil e amordaçado. Recusei-me a assinar e me retirei da
cerimônia. Indiretamente, em maio de 2002 ele foi consultado sobre o
conteúdo de uma entrevista que a Folha de São Paulo publicaria. Sobre
minhas críticas ele disse que não tinham fundamento. Viriam de um
pequeno grupo de pessoas acometidas pela "síndrome da conspiração".
Depois, numa entrevista do programa Roda Viva da TV Cultura, um
jornalista fez uma pergunta citando um artigo de minha autoria. Ele
respondeu, admitindo pela primeira vez em público a possibilidade de
fraude, com outra pergunta: "mas quem seria capaz de executar a
fraude?". Nenhum dos repórteres respondeu. A resposta está na análise do
código vazado na internet. Quanto a seus subordinados, gerentes de
projeto do sistema eleitoral, houve apenas dois eventos em que pudemos
debater. Debates inócuos, pois nenhuma possibilidade de mudança de
filosofia ou de rumo vai além do espaço aberto por habituais promessas
do tipo "vamos analisar". Gavetas de chefes de projeto, ou suas latas de
lixo, devem estar cheias de propostas técnicas minhas e de meus colegas
cientistas da computação, que nunca tiveram resposta. Até em petições e
processos judiciais, eles se calam sobre temas técnicos relacionados à
ineficácia fiscalizatória.

Já faz um tempo que o sr. vem alertando a população a respeito dos
problemas da urna eletrônica. O sr. imagina que essa luta algum dia
surtirá efeito?

Hoje, esta luta surte efeito em países que valorizam a democracia, e nos
quais se tenta repetir a infeliz experiência brasileira de supressão da
possibilidade de recontagem dos votos. No passado esta luta surtiu aqui
fugaz efeito, em reação ao mal estar causado pelo escândalo do painel do
senado, hoje abafado pela atabalhoada e canhestra aprovação da nova lei
eleitoral. Se irá algum dia surtir efeito novamente no Brasil, não sei.
Sei, todavia, dos riscos que corro. Já fui chamado de exibicionista,
conspiracionista, obcecado, paranóico, e há outras perturbações. Se o
destino me colocou na posição em que me encontro, acadêmico do
magistério público especializado em segurança na informática que tropeça
naquilo que aqui descrevo, minha ética me obriga a seguir a voz da minha
consciência. 



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