[QD-Filosofia] entrevista laymert
Rafael Evangelista <rae-47iSy4vXCZhfyO9Q7EP/[email protected]> Thu, 22 Sep 2005 18:19:52 -0300
| Newsgroups | gmane.org.user-groups.quilombo |
|---|---|
| Message-ID | <[email protected]> |
Essa entrevista saiu no Estad=E3o de domingo. Eu nem sei dizer se =E9 off=
=20
topic ou n=E3o, talvez a maior parte seja, mas fala um pouco sobre=20
pol=EDtica e internet e sobre a politiza=E7=E3o da tecnologia
A reinven=E7=E3o da pol=EDtica como diferen=E7a
Para soci=F3logo, a democracia representativa como
conhecemos se tornou apenas jogo de cena de uma classe
que insiste em escamotear o problema
IVAN CARVALHO FINOTTI
=C9 de arrepiar os cabelos. A an=E1lise que o soci=F3logo
Laymert Garcia dos Santos faz da crise pol=EDtica
brasileira =E9 das mais mordazes. Pergunte a ele o que
acha da reforma pol=EDtica em discuss=E3o. "A raiz do
problema est=E1 escamoteada." Lula? "Governo neoliberal
de esquerda." E a democracia? "Assistimos ao
enfraquecimento cont=EDnuo da democracia
representativa." Cassa=E7=F5es? "Jogos de cena." H=E1 luz no
fim do t=FAnel? "A constru=E7=E3o de uma alternativa vai
levar pelo menos 20 anos."
Note-se que o professor de 57 anos destila seu
pessimismo com um sorriso no rosto. N=E3o porque esteja
satisfeito com a queda de advers=E1rios, mas porque =E9
bem-humorado mesmo. Garcia dos Santos sempre foi um
pensador de esquerda, formado na Fran=E7a, onde fez
ainda mestrado, doutorado e p=F3s-doutorado. Em 1992,
foi professor visitante em Oxford. E atualmente d=E1
aulas de Sociologia na Unicamp, com o mesmo
pessimismo, sorriso no rosto e cabelos arrepiados com
que recebeu o Ali=E1s em sua casa em Perdizes, em S=E3o
Paulo, para esta entrevista.
A simplifica=E7=E3o das campanhas e outros aspectos da
reforma pol=EDtica em discuss=E3o s=E3o positivos para a
pol=EDtica brasileira?
Sou bastante cr=EDtico em rela=E7=E3o a isso que eu chamo de
"reforma pol=EDtica", entre aspas. Porque no meu
entender a quest=E3o principal n=E3o est=E1 sendo abordada
de jeito nenhum. Acho que a raiz do problema est=E1
escamoteada. A crise do PT e do governo Lula n=E3o passa
de uma explicita=E7=E3o de uma crise armada h=E1 muito,
quando, na campanha para as elei=E7=F5es de 1998, eles
optaram pelo marketing, no lugar do programa e do
projeto do partido. Quando decidiram que tudo o que o
PT era passava para segundo plano e o que importava
era uma estrat=E9gia eleitoral calcada no marketing, foi
armada a crise que vemos agora.
O senhor diria que essa uni=E3o entre pol=EDtica e
marketing =E9 um casamento nefasto?
N=E3o =E9 um casamento nefasto, porque na verdade =E9 uma
abdica=E7=E3o da pol=EDtica e a substitui=E7=E3o desta pelo
marketing. Quando isso aconteceu, eles passaram a
precisar de muito dinheiro. Precisando de muito
dinheiro, voc=EA tem de montar esquemas de capta=E7=E3o de
muitos recursos. E tudo o que veio depois, para mim, =E9
uma conseq=FC=EAncia desse problema inicial.
Por que a reforma pol=EDtica, que quer brecar o uso de
tanto dinheiro em campanhas, n=E3o ajudaria a resolver
isso?
Porque se voc=EA n=E3o discute o que =E9 a rela=E7=E3o entre
pol=EDtica e marketing, mas apenas procura dar uma
regulada naquilo que seria uma esp=E9cie de desvio ou
excesso, se voc=EA acha que precisa de uma corre=E7=E3o de
rota, n=E3o pega a quest=E3o de fundo; e mais adiante s=F3
lhe resta uma aparente solu=E7=E3o para um problema que
vai continuar existindo, pois sua raiz permanece
intocada. N=E3o sou eu que estou levantando esse
problema. No come=E7o dos anos 80, um pequeno livro
absolutamente corrosivo, Grunch of Giants, que poderia
ser traduzido como "A roubalheira grossa da grana
universal pelas corpora=E7=F5es", do grande tecn=F3logo
americano Richard Buckminster Fuller, afirma ser
imposs=EDvel n=E3o haver corrup=E7=E3o na era do governo pela
televis=E3o. Porque se voc=EA precisa de US$ 5 milh=F5es
para eleger um deputado, de US$ 10 milh=F5es para fazer
um senador e de US$ 50 milh=F5es para um presidente, =E9
imposs=EDvel que isso n=E3o redunde num esquema de
corrup=E7=E3o.
O senhor transfere esse mesmo racioc=EDnio para c=E1?
Acho que o que Buckminster Fuller, que nem era de
esquerda, levantava em 1983 a respeito do sistema
pol=EDtico da democracia americana, de certo modo, com
nossas taras nacionais adicionadas, se torna, no
Brasil, muito mais grave. Portanto, n=E3o h=E1 como
esperar que uma reforma pol=EDtica que n=E3o toque nessa
quest=E3o de fundo venha a resolver o problema.
E o que deve ser discutido, ent=E3o?
Eu acho que sem analisar o que =E9 o marketing na
sociedade contempor=E2nea n=E3o tem jeito de voc=EA come=E7ar
a abordar o problema. =C9 preciso saber o que =E9 o
marketing na sociedade e por que ele tem esse papel no
capitalismo contempor=E2neo. N=E3o =E9 s=F3 o marketing
pol=EDtico, mas em todas as =E1reas. Por que o marketing
assumiu o papel central na sociedade contempor=E2nea?
Devolvo a pergunta.
O fil=F3sofo franc=EAs Gilles Deleuze tem um texto muito
interessante sobre isso. Ele diz que s=F3 uma coisa hoje
=E9 universal, o mercado, e que o marketing assumiu no
capitalismo um papel central. Portanto, sem uma
cr=EDtica da rela=E7=E3o entre pol=EDtica e mercado, n=E3o d=E1
para come=E7ar a discutir reformas. =C9 preciso perceber o
que acontece a uma sociedade em que o mercado dita as
regras da pol=EDtica, na qual fazer pol=EDtica passou a
ser sin=F4nimo de governar para o mercado, e n=E3o para a
sociedade.
Lula ent=E3o governa para o mercado, e n=E3o para a
sociedade?
Se h=E1 uma grande revela=E7=E3o no governo Lula, =E9 essa.
Houve uma oportunidade hist=F3rica que foi perdida: pela
primeira vez foi eleito um governante vindo de um
partido que em princ=EDpio estaria comprometido com as
classes populares, pela primeira vez os quadros que
chegavam ao poder n=E3o tinham sido forjados
exclusivamente na experi=EAncia das elites e pareciam
comprometidos com a popula=E7=E3o, at=E9 porque muitos
vinham de baixo. Bem, isso aconteceu e, no entanto,
continuou a pol=EDtica anterior, que j=E1 consistia em
governar para o mercado, e n=E3o para a sociedade. E,
assim, se chega ao paradoxo de um governo de esquerda,
do Partido dos Trabalhadores pagando mensal=E3o para
deputados da direita votarem leis neoliberais. Basta
pensar nesse enunciado, e j=E1 temos o curto-circuito
que aconteceu no governo Lula.
Uma invers=E3o.
Ora, se as leis s=E3o neoliberais, como s=E3o, por
exemplo, a da reforma da Previd=EAncia e a de
biosseguran=E7a, os deputados que s=E3o favor=E1veis ao
capitalismo tal como a=ED est=E1 n=E3o precisavam ser pagos
para votar, certo? Agora, ter um governo de esquerda
que paga por essas vota=E7=F5es =E9 um paradoxo. Mas esse
paradoxo j=E1 estava inscrito desde o come=E7o, l=E1 atr=E1s,
quando justamente se deu o curto-circuito da troca da
pol=EDtica pelo marketing. Tudo isso cortou por pelo
menos 20 anos a possibilidade de constru=E7=E3o de uma
alternativa.
Vinte anos?
Ah, eu acho que pelo menos. Porque, se o PT levou mais
de 20 anos para conseguir "chegar l=E1", e deu no que
deu, agora a constru=E7=E3o de uma alternativa que tenha
alguma credibilidade vai levar pelos menos mais uns
20.
Esses 20 anos que o senhor diz podem ser bons para o
Brasil ou est=E3o irremediavelmente perdidos?
Estou bastante pessimista e concordo com as an=E1lises
de Francisco de Oliveira (entrevista no Ali=E1s de 4/9).
Acho que =E9 uma trag=E9dia hist=F3rica porque foi destru=EDda
a possibilidade de constru=E7=E3o de uma alternativa. E
foi destru=EDda da pior maneira poss=EDvel, com a
desmoraliza=E7=E3o da esquerda democr=E1tica e parlamentar.
Quem foi eleito em nome da transforma=E7=E3o, quem a
afirmava, fez o contr=E1rio. E quanto mais o contr=E1rio
eles fazem mais tendem a afirm=E1-la unicamente no plano
do discurso. Acontece ent=E3o uma tremenda
desqualifica=E7=E3o da linguagem, do discurso pol=EDtico no
Brasil. A linguagem hoje no Brasil n=E3o vale nada, em
setor nenhum. N=E3o =E9 s=F3 o discurso dos intelectuais que
n=E3o encontra resson=E2ncia alguma. Ali=E1s, o pr=F3prio PT,
que foi fundado e apoiado por muitos intelectuais, foi
o primeiro a n=E3o ouvi-los.
H=E1 uma gera=E7=E3o de cerca de 18 ou 20 anos que est=E1
entrando agora na vida civil e, politicamente, v=EA
esses modelos. Essa crise traz um custo para essa
gera=E7=E3o?
Eu acho devastador. Percebo isso na universidade,
porque sou professor e tenho alunos de 18 ou 19 anos,
tenho um filho de 27 anos, e vejo que para a gera=E7=E3o
de at=E9 30 anos a percep=E7=E3o =E9 de um horizonte negativo.
A descren=E7a =E9 total. Para al=E9m da quest=E3o =E9tica - e =E9
curioso porque nunca se falou tanto de =E9tica na
pol=EDtica quanto agora, e nunca se viu t=E3o pouca -, o
problema principal =E9 o horizonte negativo. Seria
preciso reinventar a pol=EDtica, mas onde est=E3o as
for=E7as capazes de faz=EA-lo? E na gera=E7=E3o dos 20 anos o
descr=E9dito na pol=EDtica =E9 uma coisa muito perigosa.
Ali=E1s, em qualquer sociedade o descr=E9dito na pol=EDtica
e perigoso, porque come=E7a a imperar o vale-tudo. Na
verdade, o que se tem =E9 uma esp=E9cie de regress=E3o
pol=EDtica muito forte, e =E9 paradoxal que aconte=E7a
exatamente no momento em que mais se fala de sociedade
civil, =E9tica, participa=E7=E3o, mais se tem movimentos
sociais, etc.
A internet politiza as pessoas?
Eu n=E3o acredito que um meio por si s=F3 possa politizar.
Qualquer meio pode politizar ou n=E3o. V=EDdeo, cinema,
televis=E3o, internet, depende se a perspectiva do
conflito =E9 considerada ou n=E3o. Se voc=EA tiver a
possibilidade de ver perspectivas diferentes, pode
politizar. Mas eu n=E3o acredito no bom-mocismo da id=E9ia
da intelig=EAncia coletiva. Acho que o acesso =E0 internet
=E9 completamente diferenciado. Eu sei que o meu acesso
=E0 internet =E9 completamente diferente do acesso do
megainvestidor George Soros. Ele tem tecnologias e
possibilidades de acesso a camadas de informa=E7=E3o que
eu n=E3o tenho. Como se d=E1 isso? Por meio de senhas. As
minhas senhas n=E3o s=E3o as do verdureiro nem as de
Soros. Ent=E3o, a internet tem camadas hier=E1rquicas, n=E3o
=E9 o mundo da democracia que todo mundo pode acessar,
como se costuma dizer.
E quanto =E0s manifesta=E7=F5es rel=E2mpagos via internet? S=E3o
pol=EDticas?
De jeito nenhum. Eu n=E3o as considero manifesta=E7=F5es.
Essa era terminou. Porque a maneira de exercer o poder
mudou.
Sua gera=E7=E3o era diferente, n=E3o =E9?
Na minha gera=E7=E3o, dos anos 60, mesmo que a gente
achasse tudo ruim, existia um horizonte ut=F3pico que
fazia com que as pessoas acreditassem na possibilidade
de uma transforma=E7=E3o. Hoje isso n=E3o existe mais. Tenho
a sensa=E7=E3o de que agora, no Brasil, estamos vivendo a
queda do Muro de Berlim. =C9 um processo que aconteceu
na Europa em 1989, mas como existia aqui, vindo da
sa=EDda da ditadura, um movimento social organizado, um
p artido pol=EDtico como o PT, que se propunha diferente
dos outros, uma sociedade civil em processo de
reivindica=E7=E3o de direitos pol=EDticos, sociais,
econ=F4micos, etc., em suma, por haver essa
positividade, 1989 n=E3o foi sentido por n=F3s como o fim
de um horizonte. Acho que agora sim. Agora =E9 a queda.
E a democracia?
Sou bastante pessimista. Estamos assistindo ao
enfraquecimento cont=EDnuo da democracia representativa.
Mundialmente?
Acho que sim. Porque de certa maneira a domina=E7=E3o e o
exerc=EDcio do poder n=E3o passam mais tanto pela
democracia representativa. Um exemplo claro disso =E9 o
papel que as medidas provis=F3rias t=EAm no exerc=EDcio de
uma regula=E7=E3o que se efetua cada vez mais pelas costas
do Parlamento. Voc=EA pode dizer que a medida provis=F3ria
=E9 de exce=E7=E3o. Mas cada vez mais no mundo
contempor=E2neo, para governar para o mercado, =E9 preciso
contar com medidas de exce=E7=E3o. Porque faz parte do
pr=F3prio capitalismo contempor=E2neo o fato de que ele
precisa ser modulado, e n=E3o modelado. Modulado quer
dizer que voc=EA tem de ir ajustando as regras do jogo
em fun=E7=E3o da velocidade da inova=E7=E3o tecnol=F3gica, das
comunica=E7=F5es, dos mercados, da financeiriza=E7=E3o da
economia. Tudo isso faz com que a lei n=E3o seja
importante, mas sim os dispositivos
jur=EDdico-administrativos que permitem essa modula=E7=E3o
cont=EDnua da gest=E3o para o mercado. Isso faz com que
uma s=E9rie de quest=F5es importantes j=E1 n=E3o passe pelo
Parlamento dos pa=EDses, mas por outras vias. As
decis=F5es importantes, quando passam pelo Parlamento,
s=E3o simplesmente reiteradas, ratificadas.
D=EA um exemplo.
Se a democracia representativa fosse importante, Tony
Blair n=E3o teria endossado a invas=E3o do Iraque. Havia 3
milh=F5es de pessoas nas ruas de Londres dizendo n=E3o =E0
guerra. Que recado est=E1 sendo dado? Os brit=E2nicos n=E3o
querem o envolvimento no Iraque. Foi feito. H=E1
possibilidades de voc=EA contornar a democracia
representativa. Um tipo de regula=E7=E3o de controle que
n=E3o est=E1 fundado na lei, mas na possibilidade dessa
modula=E7=E3o.
Essa crise pode contribuir para uma renova=E7=E3o
pol=EDtica?
N=E3o, de jeito nenhum. N=E3o acredito. Assim como n=E3o
acredito nessa hist=F3ria de refunda=E7=E3o do PT ou de
moraliza=E7=E3o da pol=EDtica. Eu realmente n=E3o acredito
nisso. E, como a quest=E3o de fundo n=E3o =E9 discutida, n=E3o
d=E1 para acreditar que a crise seja salutar.
Nem com a ajuda da reforma pol=EDtica, com campanhas
mais modestas e simplificadas?
A pol=EDtica-espet=E1culo =E9 uma cena para o pov=E3o. O poder
mesmo j=E1 n=E3o passa por a=ED - e as elites j=E1 sabem
disso. Sempre vai haver espet=E1culo para fornecer a
impress=E3o de que a representa=E7=E3o =E9 importante.
E quanto =E0s cassa=E7=F5es e aos pedidos de liminar no STF
para impedir o processo?
As cassa=E7=F5es ter=E3o de acontecer para dar satisfa=E7=E3o =E0
popula=E7=E3o. S=F3 isso. Quanto ao STF, os pol=EDticos usam
todos os recursos poss=EDveis para retardar o processo.
H=E1 sempre esperan=E7a de sobreviv=EAncia.
O senhor diz que nunca se discutiu tanto a =E9tica na
pol=EDtica. Isso n=E3o =E9 positivo?
Quando as pessoas come=E7am a discutir =E9tica, =E9 porque
n=E3o est=E3o mais discutindo pol=EDtica. A =E9tica toma o
lugar da pol=EDtica na discuss=E3o. O que =E9 a pol=EDtica? =C9
o confronto de posi=E7=F5es diferentes, a pol=EDtica =E9 o
conflito. Quando se desloca a quest=E3o para a =E9tica,
tiramos o foco do conflito. Mas voc=EA tem de lidar com
o conflito o tempo inteiro e, na sociedade em que
vivemos agora, parece que n=E3o h=E1 conflito. Veja as
incongru=EAncias no cen=E1rio brasileiro. A rela=E7=E3o, por
exemplo, entre os movimentos sociais e um governo
neoliberal "de esquerda". A linguagem =E9 a mesma, de um
lado e de outro, muitas vezes at=E9 os atores que se
encontravam de um lado agora est=E3o do outro. E, no
entanto, os interesses s=E3o opostos. Mas o fato de
estar discutindo com a mesma linguagem, com os mesmos
conceitos e aparentemente na mesma perspectiva falseia
completamente o embate. Na verdade, h=E1 uma
neutraliza=E7=E3o do conflito. Hoje em dia n=E3o h=E1 oposi=E7=E3o
no Brasil.
Como assim?
Porque todo mundo est=E1 de acordo, por exemplo, que a
economia vai bem. N=F3s somos um dos pa=EDses do mundo
onde se pagam mais impostos. Pagamos impostos
escandinavos para servi=E7os de qualidade africana. A
popula=E7=E3o sofre uma imposi=E7=E3o escorchante para um
retorno muito pequeno. Para onde vai todo esse
dinheiro? Para pagar a d=EDvida e para a corrup=E7=E3o. Numa
sociedade com esse n=EDvel de imposi=E7=E3o, com juros reais
alt=EDssimos alimentando a especula=E7=E3o, com o apartheid
social que conhecemos, com a proibi=E7=E3o de crescer e de
se desenvolver, com o desemprego estrutural, como se
pode dizer que essa economia vai bem? Voc=EA s=F3 pode
dizer isso se dissociar a economia da sociedade. Por
que h=E1 esse quase consenso de que tudo est=E1 uma
maravilha?
Talvez seja porque n=E3o temos infla=E7=E3o como nos anos
80.
=C9. Essa quest=E3o da infla=E7=E3o funciona como uma esp=E9cie
de muro, que encobre. Se n=E3o tem infla=E7=E3o, est=E1 tudo
bem. Est=E1 tudo bem para quem? Para o mercado, =E9 claro.
Mas para o mercado a melhor pol=EDtica =E9 n=E3o ter
pol=EDtica. Quando se governa para o mercado, e n=E3o para
a sociedade, n=E3o existe mais pol=EDtica. No meu
entender, a pol=EDtica acabou no Brasil, enquanto
pol=EDtica para o Pa=EDs, quando Fernando Henrique
Cardoso, no final do primeiro mandato, confessou que
algo como uns 30 milh=F5es de brasileiros n=E3o teriam
condi=E7=F5es de ser inclu=EDdos na sociedade globalizada.
Ora, quando um presidente diz isso, est=E1 dizendo que
essa popula=E7=E3o n=E3o cabe mais no projeto - portanto,
que n=E3o existe mais pol=EDtica para elas. Eu acho que
n=E3o h=E1 mais a possibilidade de ter um projeto de
sociedade. Mas, se n=E3o h=E1 mais o projeto, n=E3o h=E1 mais
uma pol=EDtica que n=E3o seja a de fazer o que o mercado
pede. A pol=EDtica hoje =E9 n=E3o ter pol=EDtica.
A partir desse cen=E1rio brasileiro, como est=E1 a
pol=EDtica mundial?
=C9 =F3bvio que n=E3o tirei o que estou dizendo s=F3 da minha
cabe=E7a. Minha refer=EAncia principal =E9 um texto de
Michel Foucault chamado Nascimento da Biopol=EDtica. =C9
um curso que ele deu no final dos anos 70 no Coll=E8ge
de France, em que fez uma an=E1lise do neoliberalismo.
Eu estava l=E1, assisti a esse curso, depois aquilo se
apagou da mem=F3ria; mas no ano passado, quando o livro
saiu, eu li e reencontrei o que tinha ouvido. Fiquei
pasmo com a atualidade do que estava sendo dito e
prenunciado no texto dele. Foucault analisava como no
p=F3s-guerra os economistas da escola de Friburgo haviam
repensado em termos neoliberais a rela=E7=E3o entre Estado
e mercado e como, na escola de Chicago, os economistas
neoliberais haviam repensado a rela=E7=E3o
mercado-indiv=EDduo. Ele juntou essas duas pontas e
anunciou tudo o que estamos vendo agora: a redu=E7=E3o do
indiv=EDduo ao chamado homo economicus, e como o
neoliberalismo v=EA a redu=E7=E3o do sujeito humano =E0
categoria de capital humano, que vai desembocar em
publica=E7=F5es como Voc=EA S.A ou Eu+Valor.
Sucesso nas bancas.
=C9. Para o neoliberalismo, cada um de n=F3s tem de ver a
si mesmo, e a pr=F3pria compet=EAncia, os pr=F3prios
recursos e o pr=F3prio patrim=F4nio gen=E9tico, como um
capital. E tem de p=F4r esse capital para circular. No
limite, praticamente n=E3o existe mais a explora=E7=E3o da
classe trabalhadora porque a pr=F3pria categoria
trabalho est=E1 em crise. Aquele que era o trabalhador
passa a n=E3o se ver mais como for=E7a de trabalho a ser
vendida no mercado, como classicamente era visto, e
passa a se ver como um capital que precisa se
valorizar; ele nem recebe mais sal=E1rio, mas rendimento
pelo seu "investimento". Foucault mostra como =E9 que a
pol=EDtica se tornou a arte de regular a sociedade em
benef=EDcio do mercado. =C9 o mercado que diz o que pode e
o que n=E3o pode, =E9 ele que estabelece os limites. Lula,
a m=EDdia, os pol=EDticos, os empres=E1rios, todo mundo est=E1
celebrando a maturidade da sociedade brasileira porque
a economia n=E3o se deixa contaminar pela instabilidade
pol=EDtica. Para mim, isso deveria ser visto como a
manifesta=E7=E3o cabal de que "est=E1 tudo dominado" e de
que a classe pol=EDtica se torna irrelevante.
E o que o governo pode fazer?
O governo Lula foi a revela=E7=E3o mais clara de que n=E3o
havia mais nada a fazer, de que eles n=E3o tinham mais
pol=EDtica para fazer. Por isso, o soci=F3logo Francisco
de Oliveira e eu concordamos que nem faz sentido
discutir o impeachment de Lula, porque ele j=E1 foi
impedido politicamente l=E1 atr=E1s. O que ele faz =E9 uma
figura=E7=E3o pat=E9tica, cena para os estratos mais pobres
da popula=E7=E3o.
Nessa linha, n=E3o faz sentido dizer que o governo Lula
acabou, porque ele nem sequer come=E7ou.
Exatamente.
O senhor diz que n=E3o h=E1 conflito hoje. Mas o que s=E3o
as CPIs sen=E3o conflitos pol=EDticos? Ou apenas
espetaculariza=E7=E3o no estilo reality show?
Se o que vale =E9 o valor de mercado que voc=EA tem, o
racioc=EDnio dos pol=EDticos, das secret=E1rias, dessas
figuras todas, tem sempre como horizonte =FAltimo o que
se pode fazer valer. O que mostra tamb=E9m uma
articula=E7=E3o muito intensa entre o que voc=EA pode fazer
valer hoje e o mundo das celebridades. Se voc=EA
conseguir furar o bloqueio e tornar-se uma
celebridade, tem-se a id=E9ia de que voc=EA vai poder
valer por "si s=F3". Pelo simples fato de ser
celebridade, vai poder existir como valor seguro de
mercado. =C9 uma ilus=E3o, porque a celebridade n=E3o vale
por ela mesma, s=F3 vale porque o mercado est=E1 dizendo
que vale. Mas ela pr=F3pria n=E3o tem valor algum, o que
fica muito claro no livro La Monnaie Vivante ("A moeda
viva"), de Pierre Klossowski, quando ele analisa por
que a top model =E9 uma escrava de luxo. Pois ela nunca
vai poder dizer o que vale por ela mesma; quem diz
isso =E9 a ind=FAstria.
Como se politiza um povo na sociedade tecnol=F3gica?
Acho que sempre colocando o foco no conflito, sem
escamotear: h=E1 interesses diferentes. Eu acho
fant=E1stico todo mundo dizer que a pol=EDtica n=E3o pode
prejudicar a economia. Mas e se foi a economia que
criou essa situa=E7=E3o pol=EDtica?
--=20
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