Re: [QD-Filosofia] entrevista laymert
Ricardo Andere de Mello <[email protected]> Fri, 23 Sep 2005 12:44:08 -0300
| Newsgroups | gmane.org.user-groups.quilombo |
|---|---|
| Message-ID | <[email protected]> |
Muita coisa no come=E7o eu achei conclus=E3o =F3bvia (nenhuma novidade), =
mas o=20
final =E9 mais interessante. A discuss=E3o da transforma=E7=E3o de cada p=
essoa=20
em "capital" n=E3o =E9 de hoje... O pr=F3prio marketing pol=EDtico sempre=
pautou=20
por vender a imagem da pessoa ao inv=E9s do programa de governo... Al=E9m=
=20
disto, estas revistas citadas eu vejo muito mais como dispositivos de=20
"auto-ajuda" do que efetivamente de evolu=E7=E3o pessoal.
O ponto que ele colocou sobre o Blair =E9 interessante, pois demonstra o=20
quanto a representa=E7=E3o democr=E1tica pode ser desafiada. Esta dist=E2=
ncia=20
entre povo e governantes normalmente serve para absorver os impactos=20
normais da Sociedade. Distanciamento demais desvirtua a democracia.
[]s, gandhi
Rafael Evangelista wrote:
> Essa entrevista saiu no Estad=E3o de domingo. Eu nem sei dizer se =E9 o=
ff=20
> topic ou n=E3o, talvez a maior parte seja, mas fala um pouco sobre=20
> pol=EDtica e internet e sobre a politiza=E7=E3o da tecnologia
>
>
> A reinven=E7=E3o da pol=EDtica como diferen=E7a
> Para soci=F3logo, a democracia representativa como
> conhecemos se tornou apenas jogo de cena de uma classe
> que insiste em escamotear o problema
>
> IVAN CARVALHO FINOTTI
>
>
> =C9 de arrepiar os cabelos. A an=E1lise que o soci=F3logo
> Laymert Garcia dos Santos faz da crise pol=EDtica
> brasileira =E9 das mais mordazes. Pergunte a ele o que
> acha da reforma pol=EDtica em discuss=E3o. "A raiz do
> problema est=E1 escamoteada." Lula? "Governo neoliberal
> de esquerda." E a democracia? "Assistimos ao
> enfraquecimento cont=EDnuo da democracia
> representativa." Cassa=E7=F5es? "Jogos de cena." H=E1 luz no
> fim do t=FAnel? "A constru=E7=E3o de uma alternativa vai
> levar pelo menos 20 anos."
> Note-se que o professor de 57 anos destila seu
> pessimismo com um sorriso no rosto. N=E3o porque esteja
> satisfeito com a queda de advers=E1rios, mas porque =E9
> bem-humorado mesmo. Garcia dos Santos sempre foi um
> pensador de esquerda, formado na Fran=E7a, onde fez
> ainda mestrado, doutorado e p=F3s-doutorado. Em 1992,
> foi professor visitante em Oxford. E atualmente d=E1
> aulas de Sociologia na Unicamp, com o mesmo
> pessimismo, sorriso no rosto e cabelos arrepiados com
> que recebeu o Ali=E1s em sua casa em Perdizes, em S=E3o
> Paulo, para esta entrevista.
>
> A simplifica=E7=E3o das campanhas e outros aspectos da
> reforma pol=EDtica em discuss=E3o s=E3o positivos para a
> pol=EDtica brasileira?
>
> Sou bastante cr=EDtico em rela=E7=E3o a isso que eu chamo de
> "reforma pol=EDtica", entre aspas. Porque no meu
> entender a quest=E3o principal n=E3o est=E1 sendo abordada
> de jeito nenhum. Acho que a raiz do problema est=E1
> escamoteada. A crise do PT e do governo Lula n=E3o passa
> de uma explicita=E7=E3o de uma crise armada h=E1 muito,
> quando, na campanha para as elei=E7=F5es de 1998, eles
> optaram pelo marketing, no lugar do programa e do
> projeto do partido. Quando decidiram que tudo o que o
> PT era passava para segundo plano e o que importava
> era uma estrat=E9gia eleitoral calcada no marketing, foi
> armada a crise que vemos agora.
>
> O senhor diria que essa uni=E3o entre pol=EDtica e
> marketing =E9 um casamento nefasto?
>
> N=E3o =E9 um casamento nefasto, porque na verdade =E9 uma
> abdica=E7=E3o da pol=EDtica e a substitui=E7=E3o desta pelo
> marketing. Quando isso aconteceu, eles passaram a
> precisar de muito dinheiro. Precisando de muito
> dinheiro, voc=EA tem de montar esquemas de capta=E7=E3o de
> muitos recursos. E tudo o que veio depois, para mim, =E9
> uma conseq=FC=EAncia desse problema inicial.
>
> Por que a reforma pol=EDtica, que quer brecar o uso de
> tanto dinheiro em campanhas, n=E3o ajudaria a resolver
> isso?
>
> Porque se voc=EA n=E3o discute o que =E9 a rela=E7=E3o entre
> pol=EDtica e marketing, mas apenas procura dar uma
> regulada naquilo que seria uma esp=E9cie de desvio ou
> excesso, se voc=EA acha que precisa de uma corre=E7=E3o de
> rota, n=E3o pega a quest=E3o de fundo; e mais adiante s=F3
> lhe resta uma aparente solu=E7=E3o para um problema que
> vai continuar existindo, pois sua raiz permanece
> intocada. N=E3o sou eu que estou levantando esse
> problema. No come=E7o dos anos 80, um pequeno livro
> absolutamente corrosivo, Grunch of Giants, que poderia
> ser traduzido como "A roubalheira grossa da grana
> universal pelas corpora=E7=F5es", do grande tecn=F3logo
> americano Richard Buckminster Fuller, afirma ser
> imposs=EDvel n=E3o haver corrup=E7=E3o na era do governo pela
> televis=E3o. Porque se voc=EA precisa de US$ 5 milh=F5es
> para eleger um deputado, de US$ 10 milh=F5es para fazer
> um senador e de US$ 50 milh=F5es para um presidente, =E9
> imposs=EDvel que isso n=E3o redunde num esquema de
> corrup=E7=E3o.
>
> O senhor transfere esse mesmo racioc=EDnio para c=E1?
>
> Acho que o que Buckminster Fuller, que nem era de
> esquerda, levantava em 1983 a respeito do sistema
> pol=EDtico da democracia americana, de certo modo, com
> nossas taras nacionais adicionadas, se torna, no
> Brasil, muito mais grave. Portanto, n=E3o h=E1 como
> esperar que uma reforma pol=EDtica que n=E3o toque nessa
> quest=E3o de fundo venha a resolver o problema.
>
> E o que deve ser discutido, ent=E3o?
>
> Eu acho que sem analisar o que =E9 o marketing na
> sociedade contempor=E2nea n=E3o tem jeito de voc=EA come=E7ar
> a abordar o problema. =C9 preciso saber o que =E9 o
> marketing na sociedade e por que ele tem esse papel no
> capitalismo contempor=E2neo. N=E3o =E9 s=F3 o marketing
> pol=EDtico, mas em todas as =E1reas. Por que o marketing
> assumiu o papel central na sociedade contempor=E2nea?
>
> Devolvo a pergunta.
>
> O fil=F3sofo franc=EAs Gilles Deleuze tem um texto muito
> interessante sobre isso. Ele diz que s=F3 uma coisa hoje
> =E9 universal, o mercado, e que o marketing assumiu no
> capitalismo um papel central. Portanto, sem uma
> cr=EDtica da rela=E7=E3o entre pol=EDtica e mercado, n=E3o d=E1
> para come=E7ar a discutir reformas. =C9 preciso perceber o
> que acontece a uma sociedade em que o mercado dita as
> regras da pol=EDtica, na qual fazer pol=EDtica passou a
> ser sin=F4nimo de governar para o mercado, e n=E3o para a
> sociedade.
>
> Lula ent=E3o governa para o mercado, e n=E3o para a
> sociedade?
>
> Se h=E1 uma grande revela=E7=E3o no governo Lula, =E9 essa.
> Houve uma oportunidade hist=F3rica que foi perdida: pela
> primeira vez foi eleito um governante vindo de um
> partido que em princ=EDpio estaria comprometido com as
> classes populares, pela primeira vez os quadros que
> chegavam ao poder n=E3o tinham sido forjados
> exclusivamente na experi=EAncia das elites e pareciam
> comprometidos com a popula=E7=E3o, at=E9 porque muitos
> vinham de baixo. Bem, isso aconteceu e, no entanto,
> continuou a pol=EDtica anterior, que j=E1 consistia em
> governar para o mercado, e n=E3o para a sociedade. E,
> assim, se chega ao paradoxo de um governo de esquerda,
> do Partido dos Trabalhadores pagando mensal=E3o para
> deputados da direita votarem leis neoliberais. Basta
> pensar nesse enunciado, e j=E1 temos o curto-circuito
> que aconteceu no governo Lula.
>
> Uma invers=E3o.
>
> Ora, se as leis s=E3o neoliberais, como s=E3o, por
> exemplo, a da reforma da Previd=EAncia e a de
> biosseguran=E7a, os deputados que s=E3o favor=E1veis ao
> capitalismo tal como a=ED est=E1 n=E3o precisavam ser pagos
> para votar, certo? Agora, ter um governo de esquerda
> que paga por essas vota=E7=F5es =E9 um paradoxo. Mas esse
> paradoxo j=E1 estava inscrito desde o come=E7o, l=E1 atr=E1s,
> quando justamente se deu o curto-circuito da troca da
> pol=EDtica pelo marketing. Tudo isso cortou por pelo
> menos 20 anos a possibilidade de constru=E7=E3o de uma
> alternativa.
>
> Vinte anos?
>
> Ah, eu acho que pelo menos. Porque, se o PT levou mais
> de 20 anos para conseguir "chegar l=E1", e deu no que
> deu, agora a constru=E7=E3o de uma alternativa que tenha
> alguma credibilidade vai levar pelos menos mais uns
> 20.
>
> Esses 20 anos que o senhor diz podem ser bons para o
> Brasil ou est=E3o irremediavelmente perdidos?
>
> Estou bastante pessimista e concordo com as an=E1lises
> de Francisco de Oliveira (entrevista no Ali=E1s de 4/9).
> Acho que =E9 uma trag=E9dia hist=F3rica porque foi destru=EDda
> a possibilidade de constru=E7=E3o de uma alternativa. E
> foi destru=EDda da pior maneira poss=EDvel, com a
> desmoraliza=E7=E3o da esquerda democr=E1tica e parlamentar.
> Quem foi eleito em nome da transforma=E7=E3o, quem a
> afirmava, fez o contr=E1rio. E quanto mais o contr=E1rio
> eles fazem mais tendem a afirm=E1-la unicamente no plano
> do discurso. Acontece ent=E3o uma tremenda
> desqualifica=E7=E3o da linguagem, do discurso pol=EDtico no
> Brasil. A linguagem hoje no Brasil n=E3o vale nada, em
> setor nenhum. N=E3o =E9 s=F3 o discurso dos intelectuais que
> n=E3o encontra resson=E2ncia alguma. Ali=E1s, o pr=F3prio PT,
> que foi fundado e apoiado por muitos intelectuais, foi
> o primeiro a n=E3o ouvi-los.
>
> H=E1 uma gera=E7=E3o de cerca de 18 ou 20 anos que est=E1
> entrando agora na vida civil e, politicamente, v=EA
> esses modelos. Essa crise traz um custo para essa
> gera=E7=E3o?
>
> Eu acho devastador. Percebo isso na universidade,
> porque sou professor e tenho alunos de 18 ou 19 anos,
> tenho um filho de 27 anos, e vejo que para a gera=E7=E3o
> de at=E9 30 anos a percep=E7=E3o =E9 de um horizonte negativo.
> A descren=E7a =E9 total. Para al=E9m da quest=E3o =E9tica - e =E9
> curioso porque nunca se falou tanto de =E9tica na
> pol=EDtica quanto agora, e nunca se viu t=E3o pouca -, o
> problema principal =E9 o horizonte negativo. Seria
> preciso reinventar a pol=EDtica, mas onde est=E3o as
> for=E7as capazes de faz=EA-lo? E na gera=E7=E3o dos 20 anos o
> descr=E9dito na pol=EDtica =E9 uma coisa muito perigosa.
> Ali=E1s, em qualquer sociedade o descr=E9dito na pol=EDtica
> e perigoso, porque come=E7a a imperar o vale-tudo. Na
> verdade, o que se tem =E9 uma esp=E9cie de regress=E3o
> pol=EDtica muito forte, e =E9 paradoxal que aconte=E7a
> exatamente no momento em que mais se fala de sociedade
> civil, =E9tica, participa=E7=E3o, mais se tem movimentos
> sociais, etc.
>
> A internet politiza as pessoas?
>
> Eu n=E3o acredito que um meio por si s=F3 possa politizar.
> Qualquer meio pode politizar ou n=E3o. V=EDdeo, cinema,
> televis=E3o, internet, depende se a perspectiva do
> conflito =E9 considerada ou n=E3o. Se voc=EA tiver a
> possibilidade de ver perspectivas diferentes, pode
> politizar. Mas eu n=E3o acredito no bom-mocismo da id=E9ia
> da intelig=EAncia coletiva. Acho que o acesso =E0 internet
> =E9 completamente diferenciado. Eu sei que o meu acesso
> =E0 internet =E9 completamente diferente do acesso do
> megainvestidor George Soros. Ele tem tecnologias e
> possibilidades de acesso a camadas de informa=E7=E3o que
> eu n=E3o tenho. Como se d=E1 isso? Por meio de senhas. As
> minhas senhas n=E3o s=E3o as do verdureiro nem as de
> Soros. Ent=E3o, a internet tem camadas hier=E1rquicas, n=E3o
> =E9 o mundo da democracia que todo mundo pode acessar,
> como se costuma dizer.
>
> E quanto =E0s manifesta=E7=F5es rel=E2mpagos via internet? S=E3o
> pol=EDticas?
>
> De jeito nenhum. Eu n=E3o as considero manifesta=E7=F5es.
> Essa era terminou. Porque a maneira de exercer o poder
> mudou.
>
> Sua gera=E7=E3o era diferente, n=E3o =E9?
>
> Na minha gera=E7=E3o, dos anos 60, mesmo que a gente
> achasse tudo ruim, existia um horizonte ut=F3pico que
> fazia com que as pessoas acreditassem na possibilidade
> de uma transforma=E7=E3o. Hoje isso n=E3o existe mais. Tenho
> a sensa=E7=E3o de que agora, no Brasil, estamos vivendo a
> queda do Muro de Berlim. =C9 um processo que aconteceu
> na Europa em 1989, mas como existia aqui, vindo da
> sa=EDda da ditadura, um movimento social organizado, um
> p artido pol=EDtico como o PT, que se propunha diferente
> dos outros, uma sociedade civil em processo de
> reivindica=E7=E3o de direitos pol=EDticos, sociais,
> econ=F4micos, etc., em suma, por haver essa
> positividade, 1989 n=E3o foi sentido por n=F3s como o fim
> de um horizonte. Acho que agora sim. Agora =E9 a queda.
>
> E a democracia?
>
> Sou bastante pessimista. Estamos assistindo ao
> enfraquecimento cont=EDnuo da democracia representativa.
>
> Mundialmente?
>
> Acho que sim. Porque de certa maneira a domina=E7=E3o e o
> exerc=EDcio do poder n=E3o passam mais tanto pela
> democracia representativa. Um exemplo claro disso =E9 o
> papel que as medidas provis=F3rias t=EAm no exerc=EDcio de
> uma regula=E7=E3o que se efetua cada vez mais pelas costas
> do Parlamento. Voc=EA pode dizer que a medida provis=F3ria
> =E9 de exce=E7=E3o. Mas cada vez mais no mundo
> contempor=E2neo, para governar para o mercado, =E9 preciso
> contar com medidas de exce=E7=E3o. Porque faz parte do
> pr=F3prio capitalismo contempor=E2neo o fato de que ele
> precisa ser modulado, e n=E3o modelado. Modulado quer
> dizer que voc=EA tem de ir ajustando as regras do jogo
> em fun=E7=E3o da velocidade da inova=E7=E3o tecnol=F3gica, das
> comunica=E7=F5es, dos mercados, da financeiriza=E7=E3o da
> economia. Tudo isso faz com que a lei n=E3o seja
> importante, mas sim os dispositivos
> jur=EDdico-administrativos que permitem essa modula=E7=E3o
> cont=EDnua da gest=E3o para o mercado. Isso faz com que
> uma s=E9rie de quest=F5es importantes j=E1 n=E3o passe pelo
> Parlamento dos pa=EDses, mas por outras vias. As
> decis=F5es importantes, quando passam pelo Parlamento,
> s=E3o simplesmente reiteradas, ratificadas.
>
> D=EA um exemplo.
>
> Se a democracia representativa fosse importante, Tony
> Blair n=E3o teria endossado a invas=E3o do Iraque. Havia 3
> milh=F5es de pessoas nas ruas de Londres dizendo n=E3o =E0
> guerra. Que recado est=E1 sendo dado? Os brit=E2nicos n=E3o
> querem o envolvimento no Iraque. Foi feito. H=E1
> possibilidades de voc=EA contornar a democracia
> representativa. Um tipo de regula=E7=E3o de controle que
> n=E3o est=E1 fundado na lei, mas na possibilidade dessa
> modula=E7=E3o.
>
> Essa crise pode contribuir para uma renova=E7=E3o
> pol=EDtica?
>
> N=E3o, de jeito nenhum. N=E3o acredito. Assim como n=E3o
> acredito nessa hist=F3ria de refunda=E7=E3o do PT ou de
> moraliza=E7=E3o da pol=EDtica. Eu realmente n=E3o acredito
> nisso. E, como a quest=E3o de fundo n=E3o =E9 discutida, n=E3o
> d=E1 para acreditar que a crise seja salutar.
>
> Nem com a ajuda da reforma pol=EDtica, com campanhas
> mais modestas e simplificadas?
>
> A pol=EDtica-espet=E1culo =E9 uma cena para o pov=E3o. O poder
> mesmo j=E1 n=E3o passa por a=ED - e as elites j=E1 sabem
> disso. Sempre vai haver espet=E1culo para fornecer a
> impress=E3o de que a representa=E7=E3o =E9 importante.
>
> E quanto =E0s cassa=E7=F5es e aos pedidos de liminar no STF
> para impedir o processo?
>
> As cassa=E7=F5es ter=E3o de acontecer para dar satisfa=E7=E3o =E0
> popula=E7=E3o. S=F3 isso. Quanto ao STF, os pol=EDticos usam
> todos os recursos poss=EDveis para retardar o processo.
> H=E1 sempre esperan=E7a de sobreviv=EAncia.
>
> O senhor diz que nunca se discutiu tanto a =E9tica na
> pol=EDtica. Isso n=E3o =E9 positivo?
>
> Quando as pessoas come=E7am a discutir =E9tica, =E9 porque
> n=E3o est=E3o mais discutindo pol=EDtica. A =E9tica toma o
> lugar da pol=EDtica na discuss=E3o. O que =E9 a pol=EDtica? =C9
> o confronto de posi=E7=F5es diferentes, a pol=EDtica =E9 o
> conflito. Quando se desloca a quest=E3o para a =E9tica,
> tiramos o foco do conflito. Mas voc=EA tem de lidar com
> o conflito o tempo inteiro e, na sociedade em que
> vivemos agora, parece que n=E3o h=E1 conflito. Veja as
> incongru=EAncias no cen=E1rio brasileiro. A rela=E7=E3o, por
> exemplo, entre os movimentos sociais e um governo
> neoliberal "de esquerda". A linguagem =E9 a mesma, de um
> lado e de outro, muitas vezes at=E9 os atores que se
> encontravam de um lado agora est=E3o do outro. E, no
> entanto, os interesses s=E3o opostos. Mas o fato de
> estar discutindo com a mesma linguagem, com os mesmos
> conceitos e aparentemente na mesma perspectiva falseia
> completamente o embate. Na verdade, h=E1 uma
> neutraliza=E7=E3o do conflito. Hoje em dia n=E3o h=E1 oposi=E7=E3o
> no Brasil.
>
> Como assim?
>
> Porque todo mundo est=E1 de acordo, por exemplo, que a
> economia vai bem. N=F3s somos um dos pa=EDses do mundo
> onde se pagam mais impostos. Pagamos impostos
> escandinavos para servi=E7os de qualidade africana. A
> popula=E7=E3o sofre uma imposi=E7=E3o escorchante para um
> retorno muito pequeno. Para onde vai todo esse
> dinheiro? Para pagar a d=EDvida e para a corrup=E7=E3o. Numa
> sociedade com esse n=EDvel de imposi=E7=E3o, com juros reais
> alt=EDssimos alimentando a especula=E7=E3o, com o apartheid
> social que conhecemos, com a proibi=E7=E3o de crescer e de
> se desenvolver, com o desemprego estrutural, como se
> pode dizer que essa economia vai bem? Voc=EA s=F3 pode
> dizer isso se dissociar a economia da sociedade. Por
> que h=E1 esse quase consenso de que tudo est=E1 uma
> maravilha?
>
> Talvez seja porque n=E3o temos infla=E7=E3o como nos anos
> 80.
>
> =C9. Essa quest=E3o da infla=E7=E3o funciona como uma esp=E9cie
> de muro, que encobre. Se n=E3o tem infla=E7=E3o, est=E1 tudo
> bem. Est=E1 tudo bem para quem? Para o mercado, =E9 claro.
> Mas para o mercado a melhor pol=EDtica =E9 n=E3o ter
> pol=EDtica. Quando se governa para o mercado, e n=E3o para
> a sociedade, n=E3o existe mais pol=EDtica. No meu
> entender, a pol=EDtica acabou no Brasil, enquanto
> pol=EDtica para o Pa=EDs, quando Fernando Henrique
> Cardoso, no final do primeiro mandato, confessou que
> algo como uns 30 milh=F5es de brasileiros n=E3o teriam
> condi=E7=F5es de ser inclu=EDdos na sociedade globalizada.
> Ora, quando um presidente diz isso, est=E1 dizendo que
> essa popula=E7=E3o n=E3o cabe mais no projeto - portanto,
> que n=E3o existe mais pol=EDtica para elas. Eu acho que
> n=E3o h=E1 mais a possibilidade de ter um projeto de
> sociedade. Mas, se n=E3o h=E1 mais o projeto, n=E3o h=E1 mais
> uma pol=EDtica que n=E3o seja a de fazer o que o mercado
> pede. A pol=EDtica hoje =E9 n=E3o ter pol=EDtica.
>
> A partir desse cen=E1rio brasileiro, como est=E1 a
> pol=EDtica mundial?
>
> =C9 =F3bvio que n=E3o tirei o que estou dizendo s=F3 da minha
> cabe=E7a. Minha refer=EAncia principal =E9 um texto de
> Michel Foucault chamado Nascimento da Biopol=EDtica. =C9
> um curso que ele deu no final dos anos 70 no Coll=E8ge
> de France, em que fez uma an=E1lise do neoliberalismo.
> Eu estava l=E1, assisti a esse curso, depois aquilo se
> apagou da mem=F3ria; mas no ano passado, quando o livro
> saiu, eu li e reencontrei o que tinha ouvido. Fiquei
> pasmo com a atualidade do que estava sendo dito e
> prenunciado no texto dele. Foucault analisava como no
> p=F3s-guerra os economistas da escola de Friburgo haviam
> repensado em termos neoliberais a rela=E7=E3o entre Estado
> e mercado e como, na escola de Chicago, os economistas
> neoliberais haviam repensado a rela=E7=E3o
> mercado-indiv=EDduo. Ele juntou essas duas pontas e
> anunciou tudo o que estamos vendo agora: a redu=E7=E3o do
> indiv=EDduo ao chamado homo economicus, e como o
> neoliberalismo v=EA a redu=E7=E3o do sujeito humano =E0
> categoria de capital humano, que vai desembocar em
> publica=E7=F5es como Voc=EA S.A ou Eu+Valor.
>
> Sucesso nas bancas.
>
> =C9. Para o neoliberalismo, cada um de n=F3s tem de ver a
> si mesmo, e a pr=F3pria compet=EAncia, os pr=F3prios
> recursos e o pr=F3prio patrim=F4nio gen=E9tico, como um
> capital. E tem de p=F4r esse capital para circular. No
> limite, praticamente n=E3o existe mais a explora=E7=E3o da
> classe trabalhadora porque a pr=F3pria categoria
> trabalho est=E1 em crise. Aquele que era o trabalhador
> passa a n=E3o se ver mais como for=E7a de trabalho a ser
> vendida no mercado, como classicamente era visto, e
> passa a se ver como um capital que precisa se
> valorizar; ele nem recebe mais sal=E1rio, mas rendimento
> pelo seu "investimento". Foucault mostra como =E9 que a
> pol=EDtica se tornou a arte de regular a sociedade em
> benef=EDcio do mercado. =C9 o mercado que diz o que pode e
> o que n=E3o pode, =E9 ele que estabelece os limites. Lula,
> a m=EDdia, os pol=EDticos, os empres=E1rios, todo mundo est=E1
> celebrando a maturidade da sociedade brasileira porque
> a economia n=E3o se deixa contaminar pela instabilidade
> pol=EDtica. Para mim, isso deveria ser visto como a
> manifesta=E7=E3o cabal de que "est=E1 tudo dominado" e de
> que a classe pol=EDtica se torna irrelevante.
>
> E o que o governo pode fazer?
>
> O governo Lula foi a revela=E7=E3o mais clara de que n=E3o
> havia mais nada a fazer, de que eles n=E3o tinham mais
> pol=EDtica para fazer. Por isso, o soci=F3logo Francisco
> de Oliveira e eu concordamos que nem faz sentido
> discutir o impeachment de Lula, porque ele j=E1 foi
> impedido politicamente l=E1 atr=E1s. O que ele faz =E9 uma
> figura=E7=E3o pat=E9tica, cena para os estratos mais pobres
> da popula=E7=E3o.
>
> Nessa linha, n=E3o faz sentido dizer que o governo Lula
> acabou, porque ele nem sequer come=E7ou.
>
> Exatamente.
>
> O senhor diz que n=E3o h=E1 conflito hoje. Mas o que s=E3o
> as CPIs sen=E3o conflitos pol=EDticos? Ou apenas
> espetaculariza=E7=E3o no estilo reality show?
>
> Se o que vale =E9 o valor de mercado que voc=EA tem, o
> racioc=EDnio dos pol=EDticos, das secret=E1rias, dessas
> figuras todas, tem sempre como horizonte =FAltimo o que
> se pode fazer valer. O que mostra tamb=E9m uma
> articula=E7=E3o muito intensa entre o que voc=EA pode fazer
> valer hoje e o mundo das celebridades. Se voc=EA
> conseguir furar o bloqueio e tornar-se uma
> celebridade, tem-se a id=E9ia de que voc=EA vai poder
> valer por "si s=F3". Pelo simples fato de ser
> celebridade, vai poder existir como valor seguro de
> mercado. =C9 uma ilus=E3o, porque a celebridade n=E3o vale
> por ela mesma, s=F3 vale porque o mercado est=E1 dizendo
> que vale. Mas ela pr=F3pria n=E3o tem valor algum, o que
> fica muito claro no livro La Monnaie Vivante ("A moeda
> viva"), de Pierre Klossowski, quando ele analisa por
> que a top model =E9 uma escrava de luxo. Pois ela nunca
> vai poder dizer o que vale por ela mesma; quem diz
> isso =E9 a ind=FAstria.
>
> Como se politiza um povo na sociedade tecnol=F3gica?
>
> Acho que sempre colocando o foco no conflito, sem
> escamotear: h=E1 interesses diferentes. Eu acho
> fant=E1stico todo mundo dizer que a pol=EDtica n=E3o pode
> prejudicar a economia. Mas e se foi a economia que
> criou essa situa=E7=E3o pol=EDtica?
>
--=20
Ricardo Andere de Mello
Presidente do Quilombo Digital
55 (11) 3271-7928 / 55 (11) 9917-7722
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fia